O enredo da novela Três Graças, da emissora Globo, reacendeu uma pauta que nunca sai do radar do setor: produtos adulterados circulam, sim, e chegam a atravessar rotas formais quando o controle falha.
A novela dramatiza o problema, mas a base é real. No Brasil, casos recentes envolvendo canetas injetáveis, oncológicos e toxina botulínica mostram que basta uma brecha para que produtos adulterados entrem no consumo. E, quando isso acontece, o prejuízo não se limita à saúde de quem compra: respinga na reputação da farmácia e pode gerar responsabilização jurídica.
No varejo, a principal defesa não está em operações complexas, mas na combinação entre fornecedores confiáveis, conferência minuciosa das embalagens e treinamento da equipe.
Parece simples, mas ainda há estabelecimentos que negligenciam etapas básicas, principalmente em compras digitais ou diante de ofertas atrativas demais para serem verdade.
Quando o sinal de alerta acende
A irregularidade raramente se apresenta de forma óbvia. As cópias são cada vez mais fiéis, e o produto falsificado costuma chegar com aparência “correta”. Por isso, a conferência passa por pontos muito específicos:
- Selo de segurança: o retângulo branco que revela a marca ao ser riscado com um objeto metálico. Ausência ou impressão grosseira é motivo imediato de atenção.
- Lote e validade: divergências numéricas, fonte desalinhada ou impressão apagada indicam manipulação.
- Erros de grafia: ainda continuam entre os sinais mais comuns.
- Embalagem com textura ou brilho diferente do utilizado pela indústria.
- Oferta muito abaixo do valor praticado no mercado formal — especialmente para produtos de alto custo.
Há também produtos desviados em roubos de carga. Nestes casos, mesmo sendo verdadeiros, podem ter perdido eficácia por falhas de armazenamento ou transporte, o que os torna tão perigosos quanto falsificações.
Para blindar a operação, o local precisa ter uma regra obrigatória: todo item novo passa por checagem dupla antes de ir para a prateleira. E isso vale tanto para aquisições presenciais quanto para compras digitais, incluindo marketplaces.
O papel do varejo
Farmácias legalizadas já operam sob uma série de normas. Mas, na prática, o que reduz o risco é o que acontece no dia a dia:
- Compra apenas de distribuidores autorizados pela Anvisa — conferência rápida no sistema da agência elimina boa parte do risco.
- Documentação visível ao público (alvará, AFE, CRT, farmacêutico responsável). Embora seja uma exigência legal, também funciona como sinalizador de seriedade.
- Rastreabilidade interna: registrar a entrada dos lotes e armazená-los em condições adequadas cria histórico e reduz brechas.
- Equipe treinada para identificar anomalias: embalagens destoantes, ausência de lacre, divergências entre o frasco e a caixa, tudo deve ser reportado antes de seguir para venda.
- Política clara para devolução ao distribuidor: qualquer suspeita precisa resultar em retirada imediata de circulação.
- Canal de denúncia ativo para clientes que tragam produtos suspeitos — isso reforça confiança e aproxima o público do estabelecimento.
Em um cenário onde produtos adulterados circulam com facilidade no ambiente digital, o varejo físico tem uma vantagem: transparência. Mostrar boas práticas, permitir que o consumidor verifique embalagens e manter o farmacêutico acessível aumenta a credibilidade e diferencia o estabelecimento das opções informais.
